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sexta-feira, 25 de julho de 2014

CULT: A voz e a música do Racionais

Por Francisco Bosco

“Comício do Partido dos Trabalhadores, dia primeiro de maio de 1999. Tem mais gente do que no ano passado, ou retrasado, mas a diferença não é muito significativa. O que chama a atenção é a presença de um outro tipo de gente, um ‘público’ diferente da militância petista que já posso chamar de tradicional, dezoito anos depois. São jovens das periferias de São Paulo. [...] Esta moçada usa boné, bermudas largas, moletons imensos, cabelo raspado e óculos escuros. São escuros também, a grande maioria. [...] Quando o animador do comício anuncia a apresentação de alguns grupos de rap, encerrando com os Racionais MC’s, entendo a presença da moçada: são os ‘manos’.”

Maria Rita Kehl flagrou a proximidade entre o rap e o PT logo nos primeiros anos de “sucesso” (é um pouco impertinente usar essa palavra, tanto eles recusaram sua lógica) do Racionais. Mas eles já estavam lá antes, senão de corpo e alma, certamente de alma. Anos depois, em uma declaração de apoio à candidatura de Dilma Roussef à presidência, Mano Brown lembraria: “Sou da geração que acompanhou o começo, o PT se formando como partido forte e tal. [...] A gente acompanhou as três eleições que o Lula perdeu”. O Racionais se formou em 1989, ano portanto da primeira disputa de Lula à presidência do Brasil. Essa convergência é carregada de sentidos e efeitos que se desdobram até hoje. O primeiro Lula, egresso do sindicalismo, foi a voz anticordial na política brasileira, erguendo-se contra as astúcias da modernização conservadora, apoiada por milhões de sujeitos socialmente massacrados, que se galvanizaram por ela. O primeiro Racionais foi, por sua vez, a voz anticordial na cultura brasileira, inspirada pelo racialismo dos negros estadunidenses, veiculada numa forma seca, franca e direta, capaz de internalizar e capturar o sentido da violência brasileira de uma maneira sem precedentes, e cuja força de verdade poética e histórica era tanta que colocou em crise toda a tradição da cultura popular brasileira, que até então se reconhecia em formas intimamente ligadas aos valores do encontro, da mistura, da conciliação de classes.
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